domingo, 13 de dezembro de 2009

YUNUS EMRE (1241-1321)

Yunus Emre nasceu em Chiraz, cerca de 1241. Foi um poeta, dervishe e místico sufista. Se sabe pouco da vida de Yunus Emre: que se casou duas vezes, teve dois filhos e chegou a cumprir os 82 anos; também que recebeu uma importante formação espiritual. Os versos de Yunus contém o espírito e filosofia do misticismo Islâmico em linguagem simples e humana. Seus temas básicos eram amor universal, amizade, irmandade e justiça divina. Se conhecem duas obras suas: Risalet-un Nushiyye (O Opúsculo dos Conselhos) e seu Diván, que inclui uns 350 poemas, ainda que lhe foram atribuídos mais de mil.
Yunus morreu por volta de 1321.
Yunus Emre foi tão popular que passou a ser venerado como santo após sua morte.

POEMAS DE YUNUS EMRE

Testemunhamos o corpo

Adentramos a casa da realização, testemunhamos o corpo.
Os céus girando, a terra com muitas camadas,
os 70 mil véus, encontramos no corpo.
A noite e o dia, os planetas, as palavras inscritas nas Tábuas Sagradas,
o monte que Moisés subiu, o Templo, e a trombeta de Rafael, nós observamos no corpo.
Tora, Salmos, Evangelho, Alcorão – o que estes livros têm a dizer, nós encontramos no corpo.
Todos dizem que estas palavras de Yunus são verdadeiras.
A verdade está aonde você quiser.
Nós encontramos tudo dentro do corpo.

Como me sinto estranho

Como me sinto estranho sob as mãos deste amor.
Não vejo meu caminho, sob as mãos deste amor.
Certa vez eu era a coroa do universo.
Agora sou sujeira para caminhar, sob as mãos deste amor.
Como um rouxinol sozinho eu chamo.
O sangue jorra dos meus olhos, sob as mãos deste amor.
Meu rosto, como uma folha de outono, reluzirá,
escurecerá e morrerá, sob as mãos deste amor.
No Dia Final, com meu colarinho em farrapos deixe-me chorar,
sob as mãos deste amor.
Que fazer quando me encontro tão longe da União?
Minhas costas estão curvadas, sob as mãos deste amor.
Yunus, você que tanto ora por Taptuk.
Não pergunte “Que devo fazer?” sob as mãos deste amor.

Se eu te contasse

Amigo: se eu te contasse sobre uma terra do amor,
você me seguiria e veria?
Nessa terra existem vinhedos que produzem um vinho mortal.
Nenhuma taça pode contê-lo,
você engoliria este vinho?
As pessoas lá devem sofrer.
Você serviria a bebida mais doce aos outros e beberia a bebida amarga?
Não existem luas ou sois neste lugar, nada cresce ou diminui,
Você abriria mão dos seus planos e esqueceria as seduções?
Aqui nos somos feitos da água, terra, fogo e ar,
Yunus, diga a nós é disso do que você é feito?

Sou eu o primeiro e o último

Sou eu o primeiro e o último que ajuda às almas,
sou quem dá a mão aos extraviados,
sou a esperança dos desesperados,
sou a vista dos que não vêem,
sou quem revela os mistérios inauditos,
sou o espírito que se esconde nos corações,
sou a água que cai sobre as pedras,
sou quem com um olhar detém o mundo,
sou quem sacia aos amantes,
sou o poder misterioso que nivela os montes,
sou quem criou estes céus,
sou o farol que ilumina os marés,
sou o guia dos crentes,
sou quem impõe a ordem,
sou quem escreveu os quatro livros,
sou a língua que recita o Corão,
sou o caminho que conduz à felicidade,
sou quem derrama riquezas,
sou o jardineiro de todos os jardins,
sou quem mandou Hamza ao monte Kaf,
sou quem pôs ali o ninho do Simorg,
sou quem diz estas palavras, não Yunus.
Quem duvida desta verdade peca:
sou eu o primeiro e o último.

Busca-O em teu mundo

Ainda que o mundo esteja impregnado de Deus,
ninguém alcança ver Seu mistério.
Se queres vê-Lo, busca-O em teu mundo,
descobrirás então que Ele não está distante.
Esta terra sobre a qual caminhas,
esta comida com que te alimentas,
se crês que são tuas, te equivocas.
O outro mundo se acha fora de minha vista,
a virtude é o que fica neste mundo.
A dor da ausência é demasiado amarga,
ninguém voltou uma vez que partiu,
mas o que vem a este vale partirá, sem remédio;
todo ser humano desta bebida tomará.
A vida é uma longa ponte
pela qual passam todos, velhos ou jovens;
pois vinde, vamos ser amigos,
a vida será mais fácil para nós,
amemos e que nos amem todos,
pois este mundo não fica para ninguém.
Se escutas e entendes as palavras de Yunus,
seguramente as aproveitarás:
este mundo não fica para ninguém.

Oferendas ao amor

Posso oferecer minha alma à pilhagem:
pois encontrei agora a Alma das almas;
posso oferecer meus bens à pilhagem:
que me importa, no presente, o ganho ou a perda?

Posso oferecer agora minhas dúvidas à pilhagem:
pois renunciei ao meu eu,
rasguei o véu que cobria meus olhos,
e alcancei a união com o Amigo.

Posso oferecer minha língua à pilhagem:
pois agora estou despojado de meu eu,
todo o reino de meu ser está invadido pelo Amigo,
e é Ele só quem fala, no presente, por minha língua.

Posso oferecer meu palácio à pilhagem:
pois quebrei todos os meus apegos,
voei em direção ao Amigo
e desci ao palácio do amor.

Posso oferecer meu remédio à pilhagem:
pois, rejeitando a dualidade,
saciei-me na mesa da Unidade
e bebi o vinho da dor que vem do Amigo.

Posso oferecer meu universo à pilhagem:
é somente quando meu ser me abandona
que o Amigo chega perto de mim
e que meu coração se preenche de luz.

Posso oferecer meu jardim à pilhagem:
pois estou enfastiado de sonhos intermináveis,
enfastiado de invernos e de verões
e encontrei o mais maravilhoso dos jardins.

Yunus, que doces palavras dizes,
tuas palavras são como açúcar e mel.
Posso oferecer todo o meu favo à pilhagem,
pois encontrei o mel dos meis.

Necessito de ti

Teu amor me há roubado de mim, Tu és tudo o que necessito.
Dia e noite ardo de amor por ti, Tu és tudo o que necessito.
Nem me contentam as riquezas, nem me assusta a pobreza.
Me bastas com teu amor. Tu és tudo o que necessito.

Teu amor dissipa outros amores; os submerge
no mar do amor. Tu és tudo o que necessito.
Tua presença tudo preenche.
Tu és tudo o que necessito.

Hei de beber o vinho de teu amor, amar-te como louco na dor.
Tu és minha preocupação. Tu és tudo o que necessito.
Isso que chamam paraíso, uns palácios, uns jardins,
a quem os quiser, dá-os. Tu és tudo o que necessito.

Ainda que tenhas que matar-me e dar ao vento minhas cinzas,
meu pó seguirá dizendo: Tu és tudo o que necessito.
Yunus, Yunus é meu nome. Meu amor cresce cada dia.
Neste mundo e no outro, Tu és tudo o que necessito.

Eu queimo

Eu vago, queimando...
Meu corpo sangrando de amor
Sensível estou, não tenho ódio
Venha, veja o que amor fez a mim.

Sou levado, como os ventos
Sou poeira, como estradas
Eu fluo como inundações
Venha, veja o que amor fez a mim.

Como Mecnum eu queimo
Eu vejo meu amado em sonho
e entristeço ao acordar
Venha, veja que amor fez a mim.

Agora ouçam

Agora ouçam, amantes, meus amigos:
O amor é uma coisa preciosa;
Não agracia a todos.
O amor é uma coisa decorosa.

Ele faz montes de cinza das colinas,
Nos corações, rastros de chamas,
Transforma sultões em vassalos -
O amor é uma coisa corajosa.

O homem golpeado pela seta do amor
Primeiro, não sente nenhuma dor nem tristeza,
Entretanto, lamenta e grita com aflição:
O amor é um coisa torturante.

Faz o mar enfurecer-se e ferver,
Arremessar ondas enormes em tumulto,
E faz pedras falarem da terra:
O amor é uma coisa vigorosa.

Yunus, o místico, está indefeso;
Ninguém compartilha sua angústia.
Seu banquete é a carícia do Amigo:
O amor é uma coisa deliciosa.

Que farei eu?

Oh amigos! Oh irmãos! Que farei eu?
Se Deus me disser: “tu não és meu servo”,
que farei eu?
Se minha cabeça desconcertada inclinar-se para sempre
e se minhas lágrimas não cessarem nunca,
que farei eu?
Se no dia do juízo meu destino for o fogo,
que farei eu?
Se naquele dia jogarem-me na cara meus pecados
e se preencherem-se com lágrimas de sangue meus olhos,
que farei eu?
Se na presença de Deus não puder encontrar escusas,
que farei eu?
Se Ele não perdoar meus pecados e culpas,
que farei eu?
Meu interior está cheio de malícia;
Se o inferno me for destinado como morada,
que farei eu?
Yunus diz que sua alma está inquieta;
algum dia, quando o corpo abraçar a terra,
se encontrar minha tumba muito estreita,
que farei eu?

Os Dervixes

O que possui a categoria dos dervixes
purifica-se, desfaz-se de todos os erros
e seu coração volve-se como prata lavrada.
É como o vento que traz o perfume de almíscar,
é como uma árvore que dá frutos,
suas folhas curam todas as enfermidades,
sob sua sombra refrescam-se os desesperados.
O lago do amor desborda-se com uma só lágrima,
em suas ribeiras brotam flores.
Todos os poetas são rouxinóis no jardim de Deus
e Yunus Emre é uma perdiz entre eles.

Retira-Te o Véu da Face

Tem piedade de mim, um só olhar,
retira-te o véu da face.
És o "quatorze do mês": em teus pomos
a lua cheia brilha.
De tua boca chegam palavras cheias de sentido.
Solta-a, que cheguem as palavras com mil indícios.
És como ensartar em coral
trinta e duas contas.
Seu valor é de pérola e sua brancura
ensombrece a pérola.
O candor de seu rosto é
afável como suaves plantas, como prato de trigo.
Tua fronte e o crescente de tuas sobrancelhas
à lua crescente graça ensinam.
As miradas de teus olhos resplandecem como tochas,
como não sucumbiria ao fogo quem te vê, tal mariposa?
O pescoço dos que amam encadeado é de amor.
Encadeados rechaçam ser livres para serem escravos.
Que parte de tua beleza deveria cantar a língua?
Espero que do mau olhado Deus te proteja.
Não poderia distinguir do cipreste tua altura,
os aros de tuas orelhas puseram fim às minhas dúvidas:
Yunus viu a Deus em seu rosto manifestar-se.
Deus em ti se faz visível, não há que afastar-te.

Moinho de Penas de Amor

Pobre moinho, por que gemes?
Tenho penas e aflições.
Enamorei-me do Senhor
E por isso vou gemendo.

Chamo-me moinho de penas,
Minhas águas correm e correm
Seguindo o mandato de meu Senhor,
E eu, que ando enamorado,
Tenho penas, vou gemendo.

Sou uma árvore no bosque;
Não sou doce, nem sou amargo,
Somente um servo do Senhor,
E tenho penas, vou gemendo.

Em um monte me encontraram,
De um cimo me tiraram,
Em moinho me tornei para girar
Porque tenho penas e penas
E gemendo vou por elas.

Nos cumes me buscaram,
Nos abismos me afogaram,
Artesãos me talharam
E meus membros acoplaram.
Mas Deus outorgou-me este suspiro:
Tenho penas, vou gemendo.

Das profundezas retiro minhas águas,
Levanto para o alto e verto-as.
Olhai, irmãos, minha carga.
Tenho penas, vou gemendo.

Um comentário:

  1. Esse comentário é geral, para todos os que aqui deixaram poemas de Sufistas amorosos, como todos eles o são. "Espero que do mau olhado, Deus te proteja"
    parabéns!
    Yara

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