domingo, 13 de dezembro de 2009

RUMI (1207-1273)

Rumi é considerado por muitos um dos maiores poetas místicos de todos os tempos. Jalal al-Din Al Rumi nasceu em 1207, em Balkh, no Khorasan, atual Afeganistão, era casado com Gevher Hatun, companheira da infância. Em 1244, Rumi conhece o velho místico Shams. Forma-se entre os dois uma profunda e ardente amizade espiritual, só terminada como assassinato de Shams. Para Shams, Rumi dedicou muitos poemas. Rumi faleceu em 1273. Para Rumi, Deus é o Sultão, o Um, o Amado, o Incognoscível, o Mistério, o Vinho... Rumi faz parte da tradição dos Dervixes Rodopiantes, místicos Sufistas que buscam atingir o êxtase dançando e girando. Quando Rumi morreu, os muezzins cantaram os versos fúnebres que o mestre compusera: "O rei do pensamento sem inquietude foi dançando para outro país, o País da Luz".
Rumi foi um grande poeta, e ficou muito conhecido especialmente pelos seus famosos livros: Masnavi, Fihi-Ma-Fihi, e Divan.

POEMAS DE RUMI

O Amor partiu meu leve coração
e o sol vem clarear minhas ruínas.

Ouvi belas palavras do Sultão.
Caí por terra triste, acabrunhado.

Acercou-se de mim, vi o seu rosto.
"Do rosto eu não sabia mais do que o véu"

Se a luz do véu abrasa esse universo,
o que dizer do fogo de teu rosto?

O Amor veio e partiu. Eu o segui.
Voltou-se, como águia, e devorou-me.

Perdi-me no tempo e no espaço.
Perdi-me nos mares do verbo.

O gosto deste vinho,
conhece quem sofreu.

Os profetas bebem tormentos.
E as águas não temem o fogo.
_______________________________

Busca a sua Beleza na beleza
e segue intrépido, sem vacilar.

A Sua imagem aquieta o coração.
Sorri a alma e cessa o sofrimento.

A luz emana de seu rosto claro
e olhos de luz; que sabem os cegos?
________________________________

Sentados no palácio duas figuras,
são dois seres, uma alma, tu e eu.

Um canto radioso move os pássaros
quando entramos no jardim, tu e eu!

Os astros já não dançam e contemplam
a lua que formamos, tu e eu!

Entrelaçados no amor, sem tu nem eu,
livres de palavras vãs, tu e eu!

Bebem as aves do céu a água doce
de nosso amor, e rimos tu e eu!

Estranha maravilha estarmos juntos:
estou no Iraque e estás no Khorasan.
________________________________

Fala com teu Amado, não resistas,
se já não podes mais viver sem Ele?

Queres Sua palavra, mas não ouves.
Andas sempre tão confuso e apressado.

Como se não quisesses mais ouvir.
A tua mente é serva da cobiça.

Buscas ouro, mas derramas sangue,
tens desejos como as mulheres grávidas.

Adoras muitos deuses e te perdes
com ídolos e imagens peregrinas.

Ele nos dá Seu ouro, Sua vida.
Pássaro da alma, voa de Seu domo.

Ele prepara um suave banquete.
Oh! Como é belo o servidor de vinho.

Se houver mais de um senhor, essa é a lei,
a casa não resiste, desmorona.

Sou seu escravo, ele é senhor.
Sou água e seu óleo flutua sobre mim.
____________________________________

Ontem no dealbar disse o Amado:
"Por que vives tão triste, além da sombra?

A rosa inveja o meu rosto; mas teus
olhos buscam espinhos."

Respondi: "Perto de ti, ciprestes são arbustos
Perto de ti, é negra a luz do céu.

Ah! moveste céu e terra;
tenho medo desse abismo."

E ele: "Sou tua alma e coração.
Descansa no meu peito de jasmim!"

E eu: "Se tu levaste minha paz
como posso me calar."

Respondeu: "És uma gota de meu oceano:
cheia de pérolas, a concha da alma."
__________________________________

Vós que saístes a peregrinar!
Voltai, voltai, que o Amado não partiu!

O Amado é vosso vizinho de porta,
por que vagar no deserto da Arábia?

Olhai o rosto sem rosto do Amado,
peregrinos sereis, casa e Kaaba.

De casa em casa buscastes resposta.
Mas não ousastes subir ao telhado.

Onde as flores, se vistes o jardim?
A pérola, além do mar de Deus?

Que descobristes em vossa fadiga?
O véu apenas, mas vós sois o véu.

Se desejais chegar à casa da alma,
buscai no espelho o rosto mais singelo.
__________________________________

Teu convite aceitei; estou confuso,
não sei chegar, não sei onde é a casa.

A cidade celebra teu amor.
Mostra o lugar, não sei onde é a casa.

E já não tentes compreender o Amado.
Não O insultes, não sei onde é a casa.

Todos sabem de mim. Queimo de amor.
Não me deixes, não sei onde é a casa.

Guia os cantores e bate o tambor.
Diz onde estás, não sei onde é a casa.

Divino Shams, não sou de mais ninguém.
Guia-me, pois não sei onde é a casa.
__________________________________

O que fazer, se não me reconheço?
Não sou cristão, judeu ou muçulmano.

Se já não sou do Ocidente ou do Oriente,
não sou das minas, da terra ou do céu.

Não sou feito de terra, água, ar ou fogo;
não sou do Empíreo, do Ser ou da Essência.

Nem da China, da Índia ou Saxônia,
da Bulgária, do Iraque ou Khorasan.

Não sou do paraíso ou deste mundo,
não sou de Adão e Eva, nem do Hades.

O meu lugar é sempre o não-lugar,
não sou do corpo, da alma, sou do Amado.

O mundo é apenas Um, venci o Dois.
Sigo a cantar e a buscar sempre o Um.

"Primeiro e último, de dentro e fora,
eu canto e reconheço aquele que É

"Ébrio de amor, não sei de céu e terra.
Não passo do mais puro libertino.

Se houver passado um dia em minha vida sem ti,
eu desse dia me arrependo.

Se pudesse passar um só instante contigo,
eu dançaria nos dois mundos.

Shams de Tabriz, vou ébrio pelo mundo
e beijo com meus lábios a loucura.

________________________________

Sou artista, pintor, desenho imagens,
nenhuma se compara a Teu fulgor.

Sei criar mil fantasmas, dar-lhes vida,
mas se vejo Teu rosto, dou-lhes fogo.

Serves Teu vinho ao ébrio na taberna,
e abates toda casa que construo.

Nossa alma em Ti se dissolve:
água na água,vinho no vinho: sinto o Teu perfume.

Cada gota de meu sangue te implora:
"Faz-me Teu par e dá-me Tua cor."

Sofre minha alma na casa de argila:
"Entra, Amado, senão hei de partir!"
______________________________________

Pudesse a árvore vagar
E mover-se com pés e asas,

Não sofreria os golpes do machado
Nem a dor de ser cortada.

Não errasse o sol por toda a noite,
Como poderia ser o mundo iluminado
A cada nova manhã?

E se a água do mar não subisse ao céu,
Como cresceriam as plantas
Regadas pela chuva e pelos rios?

A gota que deixou seu lar, o oceano,
E a ele depois retornou,
Encontrou a ostra à sua espera
E nela se fez pérola.

Não deixou José seu pai
Em lágrimas, pesar e desespero,
Ao partir em viagem para alcançar
O reinado e a fortuna?

Não viajou o Profeta
Para a distante Medina
Onde encontrou novo reino
E centenas de povos para governar?

Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
E reflete, como a mina de rubis ,
Os raios de sol para fora de ti.

A viagem te conduzirá a teu ser,
Transmutará teu pó em ouro puro.

Ainda que a água salgada
Faça nascer mil espécies de frutos,
Abandona todo amargor e acidez
E guia-te apenas pela doçura.

É o Sol de Tabriz que opera todos os milagres:
Toda árvore ganha beleza
Quando tocada pelo sol.
__________________________________

Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.
Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.
Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.
_______________________________

Eu soube enfim que o amor está ligado a mim.
E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.
Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça,
Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim.
________________________________

Se busco meu coração, o encontro em teu quintal,
Se busco minha alma, não a vejo a não ser nos cachos de teu cabelo.
Se bebo água, quando estou sedento
Vejo na água o reflexo do teu rosto
___________________________________

Oh, dia, levanta! Os átomos dançam,
As almas, loucas de êxtase dançam.
A abóbada celeste, por causa deste Ser, dança,
Ao ouvido te direi aonde a leva sua dança.
_____________________________________

Teu amor me tirou de mim.
De ti, preciso de ti
Noite e dia, eu queimo por ti.
De ti, preciso de ti.
___________________________________

A fé da religião do Amor é diferente.
A embriaguez do vinho do Amor é diferente.
Tudo que aprendes na escola é diferente.
Tudo que aprendes do Amor é diferente.
_____________________________________

Ele chegou... Chegou aquele que nunca partiu;
Esta água nunca faltou a este riacho
Ele é a substância do almíscar e nós o seu perfume,
Alguma vez se viu o almíscar separado de seu cheiro?
_____________________________________

Não posso dormir quando estou contigo
por causa de teu amor.
Não posso dormir quando estou sem ti
por causa de meu pranto e gemidos.
Passo as duas noites acordado
mas, que diferença entre uma e outra!
__________________________________

- Vem ao jardim na primavera, disseste.
- Aqui estão todas as belezas, o vinho e a luz.
Que posso fazer com tudo isso sem ti?
E, se estás aqui, para que preciso disso?
_______________________________

Nenhum comentário:

Postar um comentário