domingo, 13 de dezembro de 2009

AL HALLAJ (857-922)

Hussein Mansur Al-Hallaj nasceu na Pérsia, atual Iraque, em 857. Al- Hallaj casou-se e se estabeleceu em Bagdá com a esposa e seus quatro filhos. Desde jovem, Al-Hallaj revelou-se um homem original. Dizia buscar “a religião do amor”. A busca do amor o leva à confraria do Sufismo, a corrente mística da religião muçulmana. Mas, mesmo para seus companheiros, Al-Hallaj é provocador. No século IX, viajou à Índia para procurar em outras religiões como o Hinduísmo e o Budismo os segredos de amor. O amor o leva a entrar em conflito com os chefes de sua própria religião. Quando ele cumpriu 40 anos de idade, entrou em franco desacordo com os juristas e tradicionalistas ortodoxos e saiu à rua para pregar diretamente às multidões os sublimes princípios da vida espiritual. Al Hallaj viajou incansavelmente pelo Irã, pela Índia, pelo Turquestão, etc. Chegou até as próprias fronteiras da China. Os responsáveis pela peregrinação de Meca, o acusam de desrespeitar o santuário e o proíbem de voltar à cidade santa. Al-Hallaj explicava ao povo mais pobre as intuições da mística sufi. Foi acusado de trair a religião, por abrir às pessoas comuns segredos reservados aos iniciados. Al Hallaj ficou preso numa prisão durante nove anos, depois foi vilmente mutilado e executado em 27 de março de 922, no ano 309 da Hégira. Contam as tradições do Islã que, quando veio a noite em que deveria ser tirado do calabouço para ser justiçado na aurora, pôs-se de pé e disse a oração ritual, prosternando-se duas vezes. De dia, quando saiu da prisão, as multidões viram-no em pleno êxtase, jubiloso e dançando feliz sob o peso de suas cadeias... Suas obras foram queimadas. Durante séculos, foi proibido copiar ou possuir qualquer obra de Al-Hallaj. Salvaram-se seis cartas, além disso, 69 discursos, 80 poemas, fragmentos de preces e de prosa.

POEMAS DE AL HALLAJ

1. Me armei de paciência, mas poderá meu coração renunciar meu coração?
2. Na proximidade e na distância Teu espírito se mesclou com meu espírito.
3. E eu sou Tu como Tu és minha essência e meu desejo.

1. Oh sopro do vento! diz à jovem gazela que abreviar só acrescenta minha sede.
2. Tenho um Amado cujo amor reside nas entranhas; e se assim quer pisa minhas faces.
3. Seu espírito é meu espírito, e meu espírito é Seu espírito; se Ele deseja, eu desejo, e se eu desejo, Ele deseja.

1. Não há para mim afastamento depois de Teu afastamento,
desde que me convenci de que um são proximidade e afastamento.
2. Que de ser abandonado, o abandono é meu dono,
e que abandono pode ser se o Amor está presente?
3. Bendito sejas! pois tua mercê a um feito puro e veraz
favoreces a um escravo piedoso que ante Ti só se prosterna.

1. Tua imagem está em meu olho e Tua recordação em minha boca,
e Tua morada em meu coração, aonde então Te escondes?

1. Te quero, Te quero, não pela recompensa, pelo castigo Te quero.
2. Pois tenho alcançado todos meus desejos,
menos o prazer de minha paixão pelo tormento.

1. Eu sou Tu, sem dúvida, pois teu Senhor é meu Senhor.
2. Tua unicidade é minha unicidade, e Tua rebeldia, minha rebeldia,
3. E Tua cólera, minha cólera, e Teu perdão, meu perdão.
4. Porque fui açoitado, pois, oh Deus, quando se disse: és um adúltero?

1. Meu Único me distinguiu com a unificação da Verdade,
que entre as vias, não há até Ele outro caminho.
2. Eu sou a Verdade, e a Verdade é Verdade para a Verdade.
Revestida de Sua essência a diferença não existe.
3. Estrelas rutilantes se mostraram que cintilam com brilhos de relâmpago.

1. Adverti a meus amigos que me embarquei, mas o barco naufragou.
2. Na religião da Cruz está minha morte e nem a Meca nem a Medina quero ir.

1. Em todo meu ser alberguei Teu amor todo, oh Santidade minha,
e Te revelaste como se Tu em mim estiveras.
2. Torno meu coração ao que Tu não és, mas não vejo senão,
disto, meu estranhamento e minha familiaridade contigo por isto.
3. Heis-me aqui, de humanos rodeado, no cárcere da vida.
Prende-me, e fora deste cárcere, contigo leva-me.

1. Não sabia, - ai se o houvesse sabido!, - qual é o caminho que conduz a Ti.
2. Aniquilaste todo meu ser. Segui chorando por Ti.

1. Um mundo que me engana como se eu ignorasse sua condição.
2. Dele condenou Deus o ilícito, e eu evitei o permitido.
3. Me estendeu sua mão direita, e eu lhe devolvi sua esquerda.
4. O achei necessitado, e lhe outorguei sua totalidade.
5. Quando conheci eu seu favor para temer seu fastio?

1. Nadando sem cessar nos mares do amor,
2. Subia e baixava com as ondas.
3. Tão logo a onda me sustentava, tão logo me afundava.
4. Finalmente, o amor me levou aonde não há mais margens.
5. Então gritei: “Ó, Tu, cujo Nome não me atrevo a pronunciar,
6. Amor que seria incapaz de atraiçoar,
7. Evite minha alma que sejas juiz injusto,
8. Pois não é isso o que estipula nosso pacto!”

1. Unifica-me, ó, Único,
2. Mediante a unificação da Verdade,
3. Num ato a que nenhum caminho serve de caminho.
4. Eu sou a Verdade,
5. E, pois, a Verdade é Verdade para a Verdade,
6. Que nossa separação se desvaneça.
7. Brilhantes claridades se iluminam
8. Cintilando com o resplendor do relâmpago!

1. Assombro-me tanto de Ti como de mim, oh anelo do meu desejo!
2. Aproximaste-me tanto a Ti, que acreditei que teu “Eu” fosse meu “eu”.
3. Logo Te eclipsaste , no êxtase, até que, em Ti, me livraste de mim mesmo.
4. Oh dita nesta vida, oh descanso na sepultura!
5. Não há para mim júbilo sem Ti, pois és Tu meu temor e confiança.
6. Nos jardins de Teus emblemas está contida toda ciência
e se ainda me resta algum desejo, Tu és tudo o que eu desejo.

1. Foi-te revelado um segredo que te esteve oculto por longo tempo;
se levanta uma aurora, e és tu quem a obscurece.
2. Velas a teu coração o íntimo de seu mistério;
se não fosse por ti, teu coração não estaria selado.

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