domingo, 13 de dezembro de 2009

RUMI (1207-1273)

Rumi é considerado por muitos um dos maiores poetas místicos de todos os tempos. Jalal al-Din Al Rumi nasceu em 1207, em Balkh, no Khorasan, atual Afeganistão, era casado com Gevher Hatun, companheira da infância. Em 1244, Rumi conhece o velho místico Shams. Forma-se entre os dois uma profunda e ardente amizade espiritual, só terminada como assassinato de Shams. Para Shams, Rumi dedicou muitos poemas. Rumi faleceu em 1273. Para Rumi, Deus é o Sultão, o Um, o Amado, o Incognoscível, o Mistério, o Vinho... Rumi faz parte da tradição dos Dervixes Rodopiantes, místicos Sufistas que buscam atingir o êxtase dançando e girando. Quando Rumi morreu, os muezzins cantaram os versos fúnebres que o mestre compusera: "O rei do pensamento sem inquietude foi dançando para outro país, o País da Luz".
Rumi foi um grande poeta, e ficou muito conhecido especialmente pelos seus famosos livros: Masnavi, Fihi-Ma-Fihi, e Divan.

POEMAS DE RUMI

O Amor partiu meu leve coração
e o sol vem clarear minhas ruínas.

Ouvi belas palavras do Sultão.
Caí por terra triste, acabrunhado.

Acercou-se de mim, vi o seu rosto.
"Do rosto eu não sabia mais do que o véu"

Se a luz do véu abrasa esse universo,
o que dizer do fogo de teu rosto?

O Amor veio e partiu. Eu o segui.
Voltou-se, como águia, e devorou-me.

Perdi-me no tempo e no espaço.
Perdi-me nos mares do verbo.

O gosto deste vinho,
conhece quem sofreu.

Os profetas bebem tormentos.
E as águas não temem o fogo.
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Busca a sua Beleza na beleza
e segue intrépido, sem vacilar.

A Sua imagem aquieta o coração.
Sorri a alma e cessa o sofrimento.

A luz emana de seu rosto claro
e olhos de luz; que sabem os cegos?
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Sentados no palácio duas figuras,
são dois seres, uma alma, tu e eu.

Um canto radioso move os pássaros
quando entramos no jardim, tu e eu!

Os astros já não dançam e contemplam
a lua que formamos, tu e eu!

Entrelaçados no amor, sem tu nem eu,
livres de palavras vãs, tu e eu!

Bebem as aves do céu a água doce
de nosso amor, e rimos tu e eu!

Estranha maravilha estarmos juntos:
estou no Iraque e estás no Khorasan.
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Fala com teu Amado, não resistas,
se já não podes mais viver sem Ele?

Queres Sua palavra, mas não ouves.
Andas sempre tão confuso e apressado.

Como se não quisesses mais ouvir.
A tua mente é serva da cobiça.

Buscas ouro, mas derramas sangue,
tens desejos como as mulheres grávidas.

Adoras muitos deuses e te perdes
com ídolos e imagens peregrinas.

Ele nos dá Seu ouro, Sua vida.
Pássaro da alma, voa de Seu domo.

Ele prepara um suave banquete.
Oh! Como é belo o servidor de vinho.

Se houver mais de um senhor, essa é a lei,
a casa não resiste, desmorona.

Sou seu escravo, ele é senhor.
Sou água e seu óleo flutua sobre mim.
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Ontem no dealbar disse o Amado:
"Por que vives tão triste, além da sombra?

A rosa inveja o meu rosto; mas teus
olhos buscam espinhos."

Respondi: "Perto de ti, ciprestes são arbustos
Perto de ti, é negra a luz do céu.

Ah! moveste céu e terra;
tenho medo desse abismo."

E ele: "Sou tua alma e coração.
Descansa no meu peito de jasmim!"

E eu: "Se tu levaste minha paz
como posso me calar."

Respondeu: "És uma gota de meu oceano:
cheia de pérolas, a concha da alma."
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Vós que saístes a peregrinar!
Voltai, voltai, que o Amado não partiu!

O Amado é vosso vizinho de porta,
por que vagar no deserto da Arábia?

Olhai o rosto sem rosto do Amado,
peregrinos sereis, casa e Kaaba.

De casa em casa buscastes resposta.
Mas não ousastes subir ao telhado.

Onde as flores, se vistes o jardim?
A pérola, além do mar de Deus?

Que descobristes em vossa fadiga?
O véu apenas, mas vós sois o véu.

Se desejais chegar à casa da alma,
buscai no espelho o rosto mais singelo.
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Teu convite aceitei; estou confuso,
não sei chegar, não sei onde é a casa.

A cidade celebra teu amor.
Mostra o lugar, não sei onde é a casa.

E já não tentes compreender o Amado.
Não O insultes, não sei onde é a casa.

Todos sabem de mim. Queimo de amor.
Não me deixes, não sei onde é a casa.

Guia os cantores e bate o tambor.
Diz onde estás, não sei onde é a casa.

Divino Shams, não sou de mais ninguém.
Guia-me, pois não sei onde é a casa.
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O que fazer, se não me reconheço?
Não sou cristão, judeu ou muçulmano.

Se já não sou do Ocidente ou do Oriente,
não sou das minas, da terra ou do céu.

Não sou feito de terra, água, ar ou fogo;
não sou do Empíreo, do Ser ou da Essência.

Nem da China, da Índia ou Saxônia,
da Bulgária, do Iraque ou Khorasan.

Não sou do paraíso ou deste mundo,
não sou de Adão e Eva, nem do Hades.

O meu lugar é sempre o não-lugar,
não sou do corpo, da alma, sou do Amado.

O mundo é apenas Um, venci o Dois.
Sigo a cantar e a buscar sempre o Um.

"Primeiro e último, de dentro e fora,
eu canto e reconheço aquele que É

"Ébrio de amor, não sei de céu e terra.
Não passo do mais puro libertino.

Se houver passado um dia em minha vida sem ti,
eu desse dia me arrependo.

Se pudesse passar um só instante contigo,
eu dançaria nos dois mundos.

Shams de Tabriz, vou ébrio pelo mundo
e beijo com meus lábios a loucura.

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Sou artista, pintor, desenho imagens,
nenhuma se compara a Teu fulgor.

Sei criar mil fantasmas, dar-lhes vida,
mas se vejo Teu rosto, dou-lhes fogo.

Serves Teu vinho ao ébrio na taberna,
e abates toda casa que construo.

Nossa alma em Ti se dissolve:
água na água,vinho no vinho: sinto o Teu perfume.

Cada gota de meu sangue te implora:
"Faz-me Teu par e dá-me Tua cor."

Sofre minha alma na casa de argila:
"Entra, Amado, senão hei de partir!"
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Pudesse a árvore vagar
E mover-se com pés e asas,

Não sofreria os golpes do machado
Nem a dor de ser cortada.

Não errasse o sol por toda a noite,
Como poderia ser o mundo iluminado
A cada nova manhã?

E se a água do mar não subisse ao céu,
Como cresceriam as plantas
Regadas pela chuva e pelos rios?

A gota que deixou seu lar, o oceano,
E a ele depois retornou,
Encontrou a ostra à sua espera
E nela se fez pérola.

Não deixou José seu pai
Em lágrimas, pesar e desespero,
Ao partir em viagem para alcançar
O reinado e a fortuna?

Não viajou o Profeta
Para a distante Medina
Onde encontrou novo reino
E centenas de povos para governar?

Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
E reflete, como a mina de rubis ,
Os raios de sol para fora de ti.

A viagem te conduzirá a teu ser,
Transmutará teu pó em ouro puro.

Ainda que a água salgada
Faça nascer mil espécies de frutos,
Abandona todo amargor e acidez
E guia-te apenas pela doçura.

É o Sol de Tabriz que opera todos os milagres:
Toda árvore ganha beleza
Quando tocada pelo sol.
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Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.
Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.
Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.
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Eu soube enfim que o amor está ligado a mim.
E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.
Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça,
Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim.
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Se busco meu coração, o encontro em teu quintal,
Se busco minha alma, não a vejo a não ser nos cachos de teu cabelo.
Se bebo água, quando estou sedento
Vejo na água o reflexo do teu rosto
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Oh, dia, levanta! Os átomos dançam,
As almas, loucas de êxtase dançam.
A abóbada celeste, por causa deste Ser, dança,
Ao ouvido te direi aonde a leva sua dança.
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Teu amor me tirou de mim.
De ti, preciso de ti
Noite e dia, eu queimo por ti.
De ti, preciso de ti.
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A fé da religião do Amor é diferente.
A embriaguez do vinho do Amor é diferente.
Tudo que aprendes na escola é diferente.
Tudo que aprendes do Amor é diferente.
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Ele chegou... Chegou aquele que nunca partiu;
Esta água nunca faltou a este riacho
Ele é a substância do almíscar e nós o seu perfume,
Alguma vez se viu o almíscar separado de seu cheiro?
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Não posso dormir quando estou contigo
por causa de teu amor.
Não posso dormir quando estou sem ti
por causa de meu pranto e gemidos.
Passo as duas noites acordado
mas, que diferença entre uma e outra!
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- Vem ao jardim na primavera, disseste.
- Aqui estão todas as belezas, o vinho e a luz.
Que posso fazer com tudo isso sem ti?
E, se estás aqui, para que preciso disso?
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AL HALLAJ (857-922)

Hussein Mansur Al-Hallaj nasceu na Pérsia, atual Iraque, em 857. Al- Hallaj casou-se e se estabeleceu em Bagdá com a esposa e seus quatro filhos. Desde jovem, Al-Hallaj revelou-se um homem original. Dizia buscar “a religião do amor”. A busca do amor o leva à confraria do Sufismo, a corrente mística da religião muçulmana. Mas, mesmo para seus companheiros, Al-Hallaj é provocador. No século IX, viajou à Índia para procurar em outras religiões como o Hinduísmo e o Budismo os segredos de amor. O amor o leva a entrar em conflito com os chefes de sua própria religião. Quando ele cumpriu 40 anos de idade, entrou em franco desacordo com os juristas e tradicionalistas ortodoxos e saiu à rua para pregar diretamente às multidões os sublimes princípios da vida espiritual. Al Hallaj viajou incansavelmente pelo Irã, pela Índia, pelo Turquestão, etc. Chegou até as próprias fronteiras da China. Os responsáveis pela peregrinação de Meca, o acusam de desrespeitar o santuário e o proíbem de voltar à cidade santa. Al-Hallaj explicava ao povo mais pobre as intuições da mística sufi. Foi acusado de trair a religião, por abrir às pessoas comuns segredos reservados aos iniciados. Al Hallaj ficou preso numa prisão durante nove anos, depois foi vilmente mutilado e executado em 27 de março de 922, no ano 309 da Hégira. Contam as tradições do Islã que, quando veio a noite em que deveria ser tirado do calabouço para ser justiçado na aurora, pôs-se de pé e disse a oração ritual, prosternando-se duas vezes. De dia, quando saiu da prisão, as multidões viram-no em pleno êxtase, jubiloso e dançando feliz sob o peso de suas cadeias... Suas obras foram queimadas. Durante séculos, foi proibido copiar ou possuir qualquer obra de Al-Hallaj. Salvaram-se seis cartas, além disso, 69 discursos, 80 poemas, fragmentos de preces e de prosa.

POEMAS DE AL HALLAJ

1. Me armei de paciência, mas poderá meu coração renunciar meu coração?
2. Na proximidade e na distância Teu espírito se mesclou com meu espírito.
3. E eu sou Tu como Tu és minha essência e meu desejo.

1. Oh sopro do vento! diz à jovem gazela que abreviar só acrescenta minha sede.
2. Tenho um Amado cujo amor reside nas entranhas; e se assim quer pisa minhas faces.
3. Seu espírito é meu espírito, e meu espírito é Seu espírito; se Ele deseja, eu desejo, e se eu desejo, Ele deseja.

1. Não há para mim afastamento depois de Teu afastamento,
desde que me convenci de que um são proximidade e afastamento.
2. Que de ser abandonado, o abandono é meu dono,
e que abandono pode ser se o Amor está presente?
3. Bendito sejas! pois tua mercê a um feito puro e veraz
favoreces a um escravo piedoso que ante Ti só se prosterna.

1. Tua imagem está em meu olho e Tua recordação em minha boca,
e Tua morada em meu coração, aonde então Te escondes?

1. Te quero, Te quero, não pela recompensa, pelo castigo Te quero.
2. Pois tenho alcançado todos meus desejos,
menos o prazer de minha paixão pelo tormento.

1. Eu sou Tu, sem dúvida, pois teu Senhor é meu Senhor.
2. Tua unicidade é minha unicidade, e Tua rebeldia, minha rebeldia,
3. E Tua cólera, minha cólera, e Teu perdão, meu perdão.
4. Porque fui açoitado, pois, oh Deus, quando se disse: és um adúltero?

1. Meu Único me distinguiu com a unificação da Verdade,
que entre as vias, não há até Ele outro caminho.
2. Eu sou a Verdade, e a Verdade é Verdade para a Verdade.
Revestida de Sua essência a diferença não existe.
3. Estrelas rutilantes se mostraram que cintilam com brilhos de relâmpago.

1. Adverti a meus amigos que me embarquei, mas o barco naufragou.
2. Na religião da Cruz está minha morte e nem a Meca nem a Medina quero ir.

1. Em todo meu ser alberguei Teu amor todo, oh Santidade minha,
e Te revelaste como se Tu em mim estiveras.
2. Torno meu coração ao que Tu não és, mas não vejo senão,
disto, meu estranhamento e minha familiaridade contigo por isto.
3. Heis-me aqui, de humanos rodeado, no cárcere da vida.
Prende-me, e fora deste cárcere, contigo leva-me.

1. Não sabia, - ai se o houvesse sabido!, - qual é o caminho que conduz a Ti.
2. Aniquilaste todo meu ser. Segui chorando por Ti.

1. Um mundo que me engana como se eu ignorasse sua condição.
2. Dele condenou Deus o ilícito, e eu evitei o permitido.
3. Me estendeu sua mão direita, e eu lhe devolvi sua esquerda.
4. O achei necessitado, e lhe outorguei sua totalidade.
5. Quando conheci eu seu favor para temer seu fastio?

1. Nadando sem cessar nos mares do amor,
2. Subia e baixava com as ondas.
3. Tão logo a onda me sustentava, tão logo me afundava.
4. Finalmente, o amor me levou aonde não há mais margens.
5. Então gritei: “Ó, Tu, cujo Nome não me atrevo a pronunciar,
6. Amor que seria incapaz de atraiçoar,
7. Evite minha alma que sejas juiz injusto,
8. Pois não é isso o que estipula nosso pacto!”

1. Unifica-me, ó, Único,
2. Mediante a unificação da Verdade,
3. Num ato a que nenhum caminho serve de caminho.
4. Eu sou a Verdade,
5. E, pois, a Verdade é Verdade para a Verdade,
6. Que nossa separação se desvaneça.
7. Brilhantes claridades se iluminam
8. Cintilando com o resplendor do relâmpago!

1. Assombro-me tanto de Ti como de mim, oh anelo do meu desejo!
2. Aproximaste-me tanto a Ti, que acreditei que teu “Eu” fosse meu “eu”.
3. Logo Te eclipsaste , no êxtase, até que, em Ti, me livraste de mim mesmo.
4. Oh dita nesta vida, oh descanso na sepultura!
5. Não há para mim júbilo sem Ti, pois és Tu meu temor e confiança.
6. Nos jardins de Teus emblemas está contida toda ciência
e se ainda me resta algum desejo, Tu és tudo o que eu desejo.

1. Foi-te revelado um segredo que te esteve oculto por longo tempo;
se levanta uma aurora, e és tu quem a obscurece.
2. Velas a teu coração o íntimo de seu mistério;
se não fosse por ti, teu coração não estaria selado.

YUNUS EMRE (1241-1321)

Yunus Emre nasceu em Chiraz, cerca de 1241. Foi um poeta, dervishe e místico sufista. Se sabe pouco da vida de Yunus Emre: que se casou duas vezes, teve dois filhos e chegou a cumprir os 82 anos; também que recebeu uma importante formação espiritual. Os versos de Yunus contém o espírito e filosofia do misticismo Islâmico em linguagem simples e humana. Seus temas básicos eram amor universal, amizade, irmandade e justiça divina. Se conhecem duas obras suas: Risalet-un Nushiyye (O Opúsculo dos Conselhos) e seu Diván, que inclui uns 350 poemas, ainda que lhe foram atribuídos mais de mil.
Yunus morreu por volta de 1321.
Yunus Emre foi tão popular que passou a ser venerado como santo após sua morte.

POEMAS DE YUNUS EMRE

Testemunhamos o corpo

Adentramos a casa da realização, testemunhamos o corpo.
Os céus girando, a terra com muitas camadas,
os 70 mil véus, encontramos no corpo.
A noite e o dia, os planetas, as palavras inscritas nas Tábuas Sagradas,
o monte que Moisés subiu, o Templo, e a trombeta de Rafael, nós observamos no corpo.
Tora, Salmos, Evangelho, Alcorão – o que estes livros têm a dizer, nós encontramos no corpo.
Todos dizem que estas palavras de Yunus são verdadeiras.
A verdade está aonde você quiser.
Nós encontramos tudo dentro do corpo.

Como me sinto estranho

Como me sinto estranho sob as mãos deste amor.
Não vejo meu caminho, sob as mãos deste amor.
Certa vez eu era a coroa do universo.
Agora sou sujeira para caminhar, sob as mãos deste amor.
Como um rouxinol sozinho eu chamo.
O sangue jorra dos meus olhos, sob as mãos deste amor.
Meu rosto, como uma folha de outono, reluzirá,
escurecerá e morrerá, sob as mãos deste amor.
No Dia Final, com meu colarinho em farrapos deixe-me chorar,
sob as mãos deste amor.
Que fazer quando me encontro tão longe da União?
Minhas costas estão curvadas, sob as mãos deste amor.
Yunus, você que tanto ora por Taptuk.
Não pergunte “Que devo fazer?” sob as mãos deste amor.

Se eu te contasse

Amigo: se eu te contasse sobre uma terra do amor,
você me seguiria e veria?
Nessa terra existem vinhedos que produzem um vinho mortal.
Nenhuma taça pode contê-lo,
você engoliria este vinho?
As pessoas lá devem sofrer.
Você serviria a bebida mais doce aos outros e beberia a bebida amarga?
Não existem luas ou sois neste lugar, nada cresce ou diminui,
Você abriria mão dos seus planos e esqueceria as seduções?
Aqui nos somos feitos da água, terra, fogo e ar,
Yunus, diga a nós é disso do que você é feito?

Sou eu o primeiro e o último

Sou eu o primeiro e o último que ajuda às almas,
sou quem dá a mão aos extraviados,
sou a esperança dos desesperados,
sou a vista dos que não vêem,
sou quem revela os mistérios inauditos,
sou o espírito que se esconde nos corações,
sou a água que cai sobre as pedras,
sou quem com um olhar detém o mundo,
sou quem sacia aos amantes,
sou o poder misterioso que nivela os montes,
sou quem criou estes céus,
sou o farol que ilumina os marés,
sou o guia dos crentes,
sou quem impõe a ordem,
sou quem escreveu os quatro livros,
sou a língua que recita o Corão,
sou o caminho que conduz à felicidade,
sou quem derrama riquezas,
sou o jardineiro de todos os jardins,
sou quem mandou Hamza ao monte Kaf,
sou quem pôs ali o ninho do Simorg,
sou quem diz estas palavras, não Yunus.
Quem duvida desta verdade peca:
sou eu o primeiro e o último.

Busca-O em teu mundo

Ainda que o mundo esteja impregnado de Deus,
ninguém alcança ver Seu mistério.
Se queres vê-Lo, busca-O em teu mundo,
descobrirás então que Ele não está distante.
Esta terra sobre a qual caminhas,
esta comida com que te alimentas,
se crês que são tuas, te equivocas.
O outro mundo se acha fora de minha vista,
a virtude é o que fica neste mundo.
A dor da ausência é demasiado amarga,
ninguém voltou uma vez que partiu,
mas o que vem a este vale partirá, sem remédio;
todo ser humano desta bebida tomará.
A vida é uma longa ponte
pela qual passam todos, velhos ou jovens;
pois vinde, vamos ser amigos,
a vida será mais fácil para nós,
amemos e que nos amem todos,
pois este mundo não fica para ninguém.
Se escutas e entendes as palavras de Yunus,
seguramente as aproveitarás:
este mundo não fica para ninguém.

Oferendas ao amor

Posso oferecer minha alma à pilhagem:
pois encontrei agora a Alma das almas;
posso oferecer meus bens à pilhagem:
que me importa, no presente, o ganho ou a perda?

Posso oferecer agora minhas dúvidas à pilhagem:
pois renunciei ao meu eu,
rasguei o véu que cobria meus olhos,
e alcancei a união com o Amigo.

Posso oferecer minha língua à pilhagem:
pois agora estou despojado de meu eu,
todo o reino de meu ser está invadido pelo Amigo,
e é Ele só quem fala, no presente, por minha língua.

Posso oferecer meu palácio à pilhagem:
pois quebrei todos os meus apegos,
voei em direção ao Amigo
e desci ao palácio do amor.

Posso oferecer meu remédio à pilhagem:
pois, rejeitando a dualidade,
saciei-me na mesa da Unidade
e bebi o vinho da dor que vem do Amigo.

Posso oferecer meu universo à pilhagem:
é somente quando meu ser me abandona
que o Amigo chega perto de mim
e que meu coração se preenche de luz.

Posso oferecer meu jardim à pilhagem:
pois estou enfastiado de sonhos intermináveis,
enfastiado de invernos e de verões
e encontrei o mais maravilhoso dos jardins.

Yunus, que doces palavras dizes,
tuas palavras são como açúcar e mel.
Posso oferecer todo o meu favo à pilhagem,
pois encontrei o mel dos meis.

Necessito de ti

Teu amor me há roubado de mim, Tu és tudo o que necessito.
Dia e noite ardo de amor por ti, Tu és tudo o que necessito.
Nem me contentam as riquezas, nem me assusta a pobreza.
Me bastas com teu amor. Tu és tudo o que necessito.

Teu amor dissipa outros amores; os submerge
no mar do amor. Tu és tudo o que necessito.
Tua presença tudo preenche.
Tu és tudo o que necessito.

Hei de beber o vinho de teu amor, amar-te como louco na dor.
Tu és minha preocupação. Tu és tudo o que necessito.
Isso que chamam paraíso, uns palácios, uns jardins,
a quem os quiser, dá-os. Tu és tudo o que necessito.

Ainda que tenhas que matar-me e dar ao vento minhas cinzas,
meu pó seguirá dizendo: Tu és tudo o que necessito.
Yunus, Yunus é meu nome. Meu amor cresce cada dia.
Neste mundo e no outro, Tu és tudo o que necessito.

Eu queimo

Eu vago, queimando...
Meu corpo sangrando de amor
Sensível estou, não tenho ódio
Venha, veja o que amor fez a mim.

Sou levado, como os ventos
Sou poeira, como estradas
Eu fluo como inundações
Venha, veja o que amor fez a mim.

Como Mecnum eu queimo
Eu vejo meu amado em sonho
e entristeço ao acordar
Venha, veja que amor fez a mim.

Agora ouçam

Agora ouçam, amantes, meus amigos:
O amor é uma coisa preciosa;
Não agracia a todos.
O amor é uma coisa decorosa.

Ele faz montes de cinza das colinas,
Nos corações, rastros de chamas,
Transforma sultões em vassalos -
O amor é uma coisa corajosa.

O homem golpeado pela seta do amor
Primeiro, não sente nenhuma dor nem tristeza,
Entretanto, lamenta e grita com aflição:
O amor é um coisa torturante.

Faz o mar enfurecer-se e ferver,
Arremessar ondas enormes em tumulto,
E faz pedras falarem da terra:
O amor é uma coisa vigorosa.

Yunus, o místico, está indefeso;
Ninguém compartilha sua angústia.
Seu banquete é a carícia do Amigo:
O amor é uma coisa deliciosa.

Que farei eu?

Oh amigos! Oh irmãos! Que farei eu?
Se Deus me disser: “tu não és meu servo”,
que farei eu?
Se minha cabeça desconcertada inclinar-se para sempre
e se minhas lágrimas não cessarem nunca,
que farei eu?
Se no dia do juízo meu destino for o fogo,
que farei eu?
Se naquele dia jogarem-me na cara meus pecados
e se preencherem-se com lágrimas de sangue meus olhos,
que farei eu?
Se na presença de Deus não puder encontrar escusas,
que farei eu?
Se Ele não perdoar meus pecados e culpas,
que farei eu?
Meu interior está cheio de malícia;
Se o inferno me for destinado como morada,
que farei eu?
Yunus diz que sua alma está inquieta;
algum dia, quando o corpo abraçar a terra,
se encontrar minha tumba muito estreita,
que farei eu?

Os Dervixes

O que possui a categoria dos dervixes
purifica-se, desfaz-se de todos os erros
e seu coração volve-se como prata lavrada.
É como o vento que traz o perfume de almíscar,
é como uma árvore que dá frutos,
suas folhas curam todas as enfermidades,
sob sua sombra refrescam-se os desesperados.
O lago do amor desborda-se com uma só lágrima,
em suas ribeiras brotam flores.
Todos os poetas são rouxinóis no jardim de Deus
e Yunus Emre é uma perdiz entre eles.

Retira-Te o Véu da Face

Tem piedade de mim, um só olhar,
retira-te o véu da face.
És o "quatorze do mês": em teus pomos
a lua cheia brilha.
De tua boca chegam palavras cheias de sentido.
Solta-a, que cheguem as palavras com mil indícios.
És como ensartar em coral
trinta e duas contas.
Seu valor é de pérola e sua brancura
ensombrece a pérola.
O candor de seu rosto é
afável como suaves plantas, como prato de trigo.
Tua fronte e o crescente de tuas sobrancelhas
à lua crescente graça ensinam.
As miradas de teus olhos resplandecem como tochas,
como não sucumbiria ao fogo quem te vê, tal mariposa?
O pescoço dos que amam encadeado é de amor.
Encadeados rechaçam ser livres para serem escravos.
Que parte de tua beleza deveria cantar a língua?
Espero que do mau olhado Deus te proteja.
Não poderia distinguir do cipreste tua altura,
os aros de tuas orelhas puseram fim às minhas dúvidas:
Yunus viu a Deus em seu rosto manifestar-se.
Deus em ti se faz visível, não há que afastar-te.

Moinho de Penas de Amor

Pobre moinho, por que gemes?
Tenho penas e aflições.
Enamorei-me do Senhor
E por isso vou gemendo.

Chamo-me moinho de penas,
Minhas águas correm e correm
Seguindo o mandato de meu Senhor,
E eu, que ando enamorado,
Tenho penas, vou gemendo.

Sou uma árvore no bosque;
Não sou doce, nem sou amargo,
Somente um servo do Senhor,
E tenho penas, vou gemendo.

Em um monte me encontraram,
De um cimo me tiraram,
Em moinho me tornei para girar
Porque tenho penas e penas
E gemendo vou por elas.

Nos cumes me buscaram,
Nos abismos me afogaram,
Artesãos me talharam
E meus membros acoplaram.
Mas Deus outorgou-me este suspiro:
Tenho penas, vou gemendo.

Das profundezas retiro minhas águas,
Levanto para o alto e verto-as.
Olhai, irmãos, minha carga.
Tenho penas, vou gemendo.